|
agnosticismo
João Laurindo de Souza Netto
Nada contribui mais para a cristalização de falsos
estereótipos que as definições por “negação”,
nas quais o valor conotativo das palavras torna-se emprobrecido,
quando não desfigurado.
O caso do termo agnóstico é singularmente
demonstrativo. Costuma-se reduzir seu sentido ao de uma simples
negação: é agnóstico quem não
crê, isto é, quem não professa fé religiosa
alguma.
Esta definição “por negação”
equivale a um radical desentendimento do que deve denotar a palavra
agnosticismo, pois, desta forma, ela fica expropriada de sua vertente
semântica positiva e, portanto, torna-se inutilizável
para o seu uso filosófico no mundo atual.
O “não” do agnóstico
não é uma simples negação, um mero
“não” referencial, mas, ao contrário,
é uma posição dialética de conteúdos
definidos, que se processam no marco de um processo histórico-cultural
determinado. Este processo remete a um campo semântico que
proporciona um rico tecido de convicções filosóficas,
éticas, sociais e políticas, de contornos precisos
e racionalmente analisáveis.
O reducionismo semântico que se gera mediante
a aparente inocência do simples advérbio de negação,
tende a arrojar o agnóstico à situação
de quem “não tem”, frente à de quem
“tem” _ que seria o homem religioso. Cairíamos
assim em um perigoso equívoco dentro da prática
social, pois “ter” define um paradigma frente ao “não
ter”, em termos religioso-sociais.
Porém o agnóstico ostenta na realidade
um “ter”, pois possui uma bem formada concepção
do mundo e do homem, ou seja, uma cosmovisão específica.
O mundo, para o agnóstico, é assumido como “finitude”,
o que revela o conteúdo “positivo” da concepção
agnóstica, a qual apresenta um “humanismo radical”
que leva a sério a si mesmo, furtando-se, por definição,
a toda fuga para uma confortável transcendência.
A cosmovisão do agnóstico implica
em uma moral assentada fortemente na afirmação universal
da finitude como nota fundamental da realidade. Deste modo, o
agnóstico é tudo menos um ser empobrecido. É
a fuga do mundo para um “transmundo” desconhecido,
e só enunciável em abstrato, o que mutila e empobrece
o ser humano.
O agnóstico, enriquecido com todo o sedimento
de contribuições da história universal, encontra,
com o refinamento intelectual que exige sua cosmovisão,
seu imperativo prático na “presença”,
isto é, em “fazer-se presente” na análise
crítica e autônoma do cotidiano em todos os níveis
da finitude.
E é na abrangência social, cultural,
política, econômica e histórico-religiosa
destes níveis da finitude, que o agnóstico postula
sua visão racional, propondo um código de valores
que lhe é próprio, nunca como mera “negação”,
porém sempre como clara “afirmação”.
|